quinta-feira, 12 de março de 2026

A ESTRELA DE JEREMIAS - ROMANCE DE LÚCIA ANDRADE ( Resenha: CELSO LOPES)

 

       

“A ESTRELA DE JEREMIAS”

Romance-thriller de Lúcia Andrade ampara

os ‘vulneráveis’ e  expõe os ‘intocáveis’.

 

 

Já na segunda página do livro , o leitor se depara com  uma advertência “tarja preta”: Trata-se de temas delicados que podem causar gatilhos como abuso sexual, agressão, uso de substâncias ilícitas, violência doméstica e pedofilia.  Caso tenha alguma dificuldade ao lidar com esses temas, peça acompanhamento profissional ou interrompa a leitura.”.  Assim tem início o romance de Lúcia Andrade, A Estrela de Jeremias,  que, aliando-se à nota,  esclarece:  A história me veio à mente já com o nome de Jeremias, da irmã dele (Rebeca) e do vilão (Coronel. Edmundo Masagão). Obra terminada, a autora deu o seu veredicto:  “defino (o romance) como um ensaio de tortura física e psicológica”. E para tanto, para se chegar a esse ponto vital, a autora pôs-se à luta em pesquisas de campo, descobrindo histórias escandalosamente piores, além de aberrações em alto grau, talvez, mesmo, superiores àquela que rascunhara. A história estava contada: “Não era imaginação minha. Todos os relatos eram verídicos . E eram apenas alguns dentre muitos (...) Ainda existem lugares onde a moeda de troca mais forte se chama miséria” 

Ao logo desse  romance-thriller, podemos acompanhar algumas nuances e os intrincados caminhos criados para  a construção narrativa.  Vejamos uma conversa de Masagão com seu amigo Médico:  “ Você foi perfeito – disse o dono da casa com entusiasmo. – Aprendi com você.- Não vai se arrepender. Te devo mais esta. O que achou do meu garoto novo? – Estou impressionado. Apesar da pobreza, ele parece filho de rico. - Parece um príncipe. – Príncipe com jeito  de anjo, do jeito que você gosta. Como veio parar aqui? - É uma longa história. Um dia te conto. O importante é que daqui ele não sai mais!... – Vai servir um tira-gosto, não vai? – Talvez. Ainda estou preparando o terreno para na hora certa dar o bote. - Ah. Edmundo, você é terrível. – Agora tenho nas mãos o material que queria. Carne de primeira!... – Você quer filé mignon ao ponto!...- Exatamente!..Jeremias é especial. E agora é só meu!...(Cap. A CASA SOMBRIA).

Na sequencia, assim se dá os preparativos do Coronel Masagão, definindo que a hora havia chegado. Momento também de chamar e orientar o ajudante Tadeu:  “- A partir de hoje o quarto de Jeremias deve ser trancado à noite.(...) Quando já estava quase adormecendo, (Jeremias) sentiu um toque em sua coxa. Abriu os olhos, sobressaltado (...) Não tenha medo (...) - Ei, ei...calma! Eu só quero te fazer carinho. Só isso. Vem cá! Jeremias continuou encolhido, acuado. Masagão com um gesto rápido o puxou pelas pernas em sua direção. O menino lutou, se dabateu, mas o homem conseguiu alcançar seu pescoço , dando lhe um a gravata,  e com o peso do seu corpo imobilizou Jeremias sob ele.  Masagão o algemou à cabeceira da cama e depois o amordaçou. O garoto ainda se debatia mas não tinha como se livrar. O homem então despiu a parte de baixo da roupa da criança, arriou a calça do seu pijama e com crueldade, estuprou o menino (...)  ( Cap. A PERDA DA INOCÊNCIA)

Romance premiado  no concurso literário coordenado pela UBE/RJ (2009), da autora Lúcia Andrade, escritora autodidata, que  a despeito de guerreira  frente a   sua saúde física, cria uma fortaleza de corpo e alma e se põe “de frente pro crime” em sua narrativa  antipedofilia, numa venerável criação com base em fatos reais. Sendo direto ao ponto, um trecho da divulgação da Editora Emó, na quarta-capa, reforça, positivamente,  esse propósito da autora:

(...) O contexto deste livro é mais que uma simples narrativa de sofrimento, é um reflexo das muitas crianças que, assim como Jeremias, enfrentam realidades devastadoras e lutam para se libertar das correntes que as aprisionam. Em tempos em que o combate ao abuso infantil é uma questão de urgência social, essa história, apesar de ficcional, se mostra essencial para abrir os olhos da sociedade e incentivar a empatia e a ação (...)

Um trecho de destaque do livro, sobressai-se à habilidade da autora ao atribuir ao seu personagem Jeremias,  uma memória fotográfica, fato  que torna oportuna e favorável a evolução do texto, dotando-o de verdade, de ritmo, de nuances fortes e suspense à altura do projeto literário. Mérito esse que deve ser creditado, com louvor, à autora em seu mecanismo de olhar o mundo, de busca, de pesquisa, de criação e  seleção dos pontos altos, e até mesmo de crueza elevada a algumas potências,  elementos esses necessários à força motriz desse romance-denúncia.

Dentro dessa linha de observação, há  suportes humanos  precisos, além de  conflitos expressivos para situar a narrativa de Lúcia Andrade num contexto de Romance-thriller,   capaz de enfrentar e  romper os muros dos privilegiados e intocáveis, cujo panteão surge na figura do personagem-símbolo,  Coronel Edmundo Masagão.  Nesse confronto, o opressor  Masagão terá pela frente, diante de seus abusos e mando,  o seu desafeto maior, constante, contínuo, de enfrentamento sem recuo e de  resiliência ímpar, ou seja, Jeremias, cujo nome, de origem hebraica, em tradução básica, sugere-se “ O elevado por Deus”. Assim, será ele, Jeremias, tal qual um profeta  dotado de garra, liderança física, prática e espiritual, cuja perseverança nos  conduz  para a implosão dessa  ‘zona de conforto opressora’ do velho e conhecido “Coronelismo” brasileiro.

No trecho de sua delicada e honesta apresentação, Lúcia Andrade nos revela e se pergunta: “ Desde que soube da morte dele, ainda na minha infância, nasceu o desejo de contar um pouco da história de dor do menino César, o Cesinha, que foi para o céu. (...) Naquela manhã acordei chorando com a emoção do protagonista da história, mas me perguntava, como eu, mulher, mãe de um menino, e uma pessoa que abomina qualquer tipo de violência sexual, seja contra homem, mulher ou criança, poderia  escrever sobre esse tema?”

Quero crer que a  resposta surge em cada página. A autora fez-se à necessária superação. Isso por que A Estrela de Jeremias, que reputo como um  “romance-thriller”,  nasceu mesmo como uma metáfora simbolizando denúncias e  pontes para as mudanças necessárias e éticas, disposto a  alcançar a  liberdade e o bem-estar humano e humanitário.  Sendo assim, a narrativa em questão ultrapassa o gênero de entretenimento, tornando-se um instrumento que expõe um sistema tão permissivo à opressão, em especial, sobre os mais vulneráveis, sejam esses crianças ou adultos, homens ou mulheres.  

Nessa linha,  a narrativa tensiona as estruturas de poder, como uma crítica social,  expondo aqueles que se mantêm protegidos por sistemas que perpetuam essas desigualdades. Cabe aqui, portanto, nesse romance de leitura obrigatória e essencial, um olhar como fosse um audiovisual, ou seja, um filme,  um thriller,  cuja dramaturgia e cenas estão quase prontas,  e atuam como  mecanismos de desestabilização de dominadores que, sem trégua e sob o silêncio de quem deveria coibir,  atuam em campo livre e com sorriso nos lábios, impunementes.

- O que não falta para esse foco de trhiller?

Há ritmos latentes, conflitos intensos e revelações diversas, ou seja, estamos nós, leitores, ou possíveis espectadores, num campo minado, onde a “zona de perigo”  nos persegue como  uma constante até o seu desfecho.

O thriller, então, seria um elemento que rompe  a blindagem, com a obrigação expor ao público o objeto de reflexão, ou seja,  A Estrela de Jeremias avança para o  romance de tensão, que não apenas entretém, mas provoca. E muito. O bastante!...

E assim, entrega o prometido:  pois   além de focar nas vítimas, coloca sob luz intensa os agentes da opressão (sejam eles traficantes, coronéis, padres e muitos  outros),  questionando suas  certezas e expondo e aniquilando as  fragilidades.

Nessa linha de direção, cabe acentuar na lembrança, o filme “Cidade de Deus”, originalmente, um competente romance de fôlego do autor Paulo Lins, e posteriormente,  transposto para a tela pelas mãos hábeis de roteiristas e respectiva atuação dos diretores. Se nesse, Cidade de Deus, entra em cena o ambiente dominado pelo tráfico de drogas em décadas passadas, aqui, em A Estrela de Jeremias, mantém-se a continuidade de usuários, consumidores e máfias protegidas com  todas as suas decorrências – seja em  crimes de morte, pedofilia, roubo, extorsão, abuso infantil, prostituição e  violências diversas.

Se naquele, pode-se falar, em especial, nas vivências locais do autor; neste, A Estrela de Jeremias, deve-se enaltecer o produto  fiel da pesquisa de Lúcia Andrade, envolvendo-nos com sua linguagem dura, fria, com narrativa ágil e envolvente, além de personagens bem-construídos para a sustentação do seu primeiro romance.

Paulatinamente, a autora vem se despontando com sua escrita compromissada com o leitor, seja no campo poético (Religare/Poesias), seja com olhar para a infância e o futuro ( O lixo tem pernas?), ou ainda, Cabelos de Pequeno Príncipe, Umessias VS Eugenia,  e outros.    Livro de fôlego, que beira à 400 páginas,  A Estrela de Jeremias, de Lúcia Andrade,  autora promissora e impetuosa, embasando seu romance em linguagem realista, capaz de reconstruir o universo de vulneráveis e desfavorecidos,  tanto quanto, de figuras emblemáticas de um Brasil opressor, ao refletir esse cotidiano caótico que sobrevive à ficção, entendo que o romance segue à espera de um olhar de “fazedores” do nosso audiovisual, pois carrega em seu bojo, ingredientes extremamente indispensáveis para uma transmutação de linguagem. Vale o escrito. Aguarda-se o desafio.

 

 

 

Celso Lopes / Escritor

elipse84@terra.com.br

10/março/26

 

CANIVETE SUÍÇO ( Coletânea: CRÔNICA PARA BOI NENHUM DORMIR - Ed. ASPAS DUPLAS 2026)

 



A coletânea “Crônicas para boi nenhum dormir” é um convite à leitura que desperta, surpreende e encanta. O título brinca com a conhecida expressão popular “conversa para boi dormir”, usada para designar histórias sem fundamento, enrolações e discursos vazios. Aqui, no entanto, o sentido se inverte: as crônicas reunidas nestas páginas são tudo, menos desinteressantes. Elas provocam, divertem, emocionam e nos lembram que a literatura é feita para manter os olhos e a mente bem abertos.

A crônica, gênero que ganhou vida própria no Brasil, nasceu ligada ao jornalismo, com textos breves que comentavam o cotidiano e os acontecimentos do momento. Com o tempo, consolidou-se como uma das formas literárias mais queridas de nossos leitores, por sua capacidade única de transformar o banal em poesia, o comum em reflexão e o detalhe em eternidade.

Nesta coletânea, o leitor encontrará a diversidade do gênero em sua plenitude: crônicas cotidianas, que revelam o encanto escondido no dia a dia; crônicas humorísticas, que nos arrancam o riso; crônicas sociais, que nos convidam à reflexão; crônicas poéticas, que se aproximam do lirismo; e crônicas narrativas, que contam pequenas grandes histórias. Cada página traz um olhar singular, uma perspectiva que, ainda que breve, tem a força de permanecer.





CANIVETE SUÍÇO”

(Crônica de Celso Lopes) 

 

 Registra-se que o exército suíço fez  encomenda de um aparelho que atendesse às seguintes necessidades:  resistência, praticidade, facilidade de transporte, leve e com muita versatilidade. Pronto. Surgiu o “Canivete Suíço” (SwissArmyKnife), logo incorporado como um utensílio multiuso, capaz de entregar o prometido. Dessa forma,  o conceito do Canivete Suíço, utilitário,  expandiu-se largamente,  pois não somente a lâmina é útil, como também inúmeras outras inovações, incluindo até mesmo,   a função de Pen-Drive...

O escritor americano Cormac McCarthy, que se destaca dentre  os grandes nomes da literatura contemporânea,  teria enxergado em sua máquina de escrever Olivetti, uma  metáfora  precisa,  registrada por ele em uma única palavra:“- Estupenda!..”.  Afirma-se que  diante da  perplexidade  de um aluno sobre a sua Olivetti, que teria perguntado:  - O que é isto?” . McCarthy, tranquilo,  não titubeou: “ isto é um raro talismã, chego a imaginá-lo como  uma  escultura  do monte Rushmore, sendo feita, calmamente, pausadamente, com um “Canivete-Suíço”.. A imaginação do escritor  vai além dessa referência para enaltecer sua “Estupenda” máquina de escrever,  no que é seguido por uma legião de  admiradores-escritores. Tom Hanks, por exemplo,  no seu primeiro livro de ficção (Tipos Incomuns – Algumas histórias),  mantém o  enredo girando em torno da sua paixão pela  máquina de escrever.  Os contos têm algo em comum: em todos eles, ela desempenha um papel importante.  Além disso,  o autor  é dono de uma centena delas,  mas hoje, avançando no tempo, garante que já redige suas histórias em um Notebook... Esse “canivete suíço” nas mãos de autores dessa estirpe, como   Agatha Christie com sua Hemington No.2...  Orson Welles com sua Underwood, com nome e endereço pintados na caixa... Danielle Steel com sua Olympia, carinhosamente chamada “Ollie”, Ian Fleming com a Triumph... Jack Kerouac com sua Hermes 3000, sem dúvida,  reforçam e desvendam centenas de amantes da antiga máquina de escrever  que ganhou escala industrial  pelas mãos da  Remington  e,  posteriormente,  se popularizou  sendo usada por empresas, órgãos públicos e, é claro, por um amplo universo de  estudantes, escritores, etc.  Até que fosse voto vencido pelo computador,  o último fabricante, indiano, fechou suas portas em 2011.  Mas, acautelemo-nos: a máquina de escrever, mesmo nesses novos tempos, continua  como ícone, como  um dos símbolos da escrita e literatura, e neste caso, amparada pelos seus  inúmeros seguidores/escritores.  É possível inserir que no crepúsculo das letras em teclas, quando o tilintar dos tipos mecânicos se dissolve num silêncio obrigatório  diante do teclado do  Computador, ainda há um cortejo de escritores que se reúne ao som de um  “adeus”  as suas antológicas ferramentas de trabalho, por vezes,  ainda guardadas, orgulhosamente,  numa pequena área da estante. 

Nesse rol de usuários  estão inclusos aí os apaixonados como  Charles Bukowski, que elaborou  um poema para a sua   “IBM SELECTRIC”...   A escritora Clarice Lispector,   destacou seus trabalhos numa UNDERWOOD  sobre o colo...  Erico Veríssimo era acompanhado da  sua CONTINENTAL...  Do escritor Ernest Hemingway, afirmam  que  trocava de máquina a cada novo livro...  Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Marques, nasceu, rigorosamente,  em sua TORPEDO 18; e a ROYAL Portátil acompanhou em boa parte,  os romances do   escritor Jorge Amado.  O assunto é vasto... e pode ir bem longe. Nesse período, a  que chamamos decrepúsculo das letras em teclas’, vale a pena tentar “ouvir” um tilintar de vozes, como  fossem um  “adeus às máquinas ” – instrumentos que tanto entregaram emoções  para o nosso deleite. E por que não? ... Assim,  Hemingway, com seu olhar duro e gestos firmes, repousa as mãos calejadas sobre sua Remington  e nos avisa que  "Era como brigar com um touro selvagem".   Virginia Woolf toca com delicadeza as teclas de sua Corona, como se fossem as ondas de um rio, e insinua nostálgica com o melhor de si:  "As palavras fluíam melhor quando ouvia o som de cada letra surgindo no papel"... Jack Kerouac, o  irrequieto, rememora suas noites diante de sua Underwood, com rolos intermináveis de papel. "O fluxo, a batida, a música da máquina me guiava", declara-nos, prazerosamente...Clarice Lispector, a divina de “A hora da Estrela”, com seu olhar misterioso, desliza os dedos sobre sua Hermes Baby. "Havia um pacto entre nós: eu pensava, ela registrava. Sem julgamentos, sem pressa, apenas cumplicidade", reflete, com seu   sorriso indecifrável nos lábios. Gabriel García Márquez, com a Olivetti Lettera 32, suspira fundo e nos revela: "Ela conhecia o ritmo dos meus contos, o compasso de Macondo. Cada tecla era um acorde do meu  realismo mágico." Ouvidos atentos e olhos abertos, no fundo, bem no fundo, pode se “ver” e “escutar”  o  som distante dos últimos clac, clac, clac. Como uma despedida. Como um adeus.... E as máquinas, exaustas, cansadas da  labuta diária, dormem agora em espaços de  museus, nas estantes de seus amorosos  donos, nas oficinas de consertos e, claro, nos  corações saudosos  de quem tanto admiramos. Dormem, mas não estão mortas. Seus fantasmas ainda vivem no peso das palavras e  nas histórias que ecoam  com paixão. E talvez, em algum canto do mundo, alguém ainda as escute, esperando que um par de dedos inquietos as desperte... Mas seus ecos, tão precisos e preciosos, como um “Canivete Suíço”,  seguem-nos vivos e presentes,  página a  página, que um dia ajudaram a criar.

 



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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

ANATOMIA DE UM CRIME (coletânea) Título: FILEIRA F, POLTRONA 1 - Celso Lopes

 



A obra reúne contos inspirados em casos reais que exploram culpa, medo e violência nas zonas sombrias da natureza humana.

 

Anatomia de um crime: histórias que abalaram o mundo reúne contos baseados em casos reais que expõem o lado mais profundo e contraditório da natureza humana. Cada narrativa mergulha em acontecimentos que marcaram pessoas e épocas, revelando não apenas o crime, mas as zonas de sombra onde nascem medo, culpa, desejo e violência. O leitor é conduzido para além das manchetes, para o território incômodo onde a verdade raramente é simples.

 

As histórias exploram múltiplas perspectivas e convidam o leitor a enfrentar dilemas inevitáveis. Quem é a verdadeira vítima? Quem fala a verdade? Até onde alguém pode ser levado por desespero, ambição ou vingança? Humanos ou monstros? O julgamento é seu. Em cada conto, documentos, memórias e versões conflitantes compõem um mosaico que desafia certezas e coloca em xeque as fronteiras entre certo e errado.

 

Instigante e envolvente, esta antologia mostra que o crime não termina quando a polícia encerra um caso. Ele continua vivo em quem se lembra, em quem perdeu, em quem sobreviveu. Ao virar cada página, o leitor é convidado a encarar a pergunta mais perturbadora de todas: o que realmente nos separa daqueles que cruzam a linha?







FILEIRA F, POLTRONA 1   ( Conto de CELSO LOPES)


“FILEIRA F, POLTRONA 1”

 

Atirador do Cinema no Shopping Morumbi: Em 03 de novembro de 1999, o estudante de medicina Mateus da Costa Meira, 24 anos,  abriu fogo contra pessoas em uma sala de cinema do Shopping Morumbi, matando três e ferindo outros, enquanto assistiam ao filme “Clube da Luta”. Neste Massacre,  o autor  utilizou uma submetralhadora 9 milímetros e disparou entre 60 a 80 tiros na sala escura, por volta das 21h15. (fonte: Google)

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O Doutor Luiz Marcos, cardiologista-cirurgião, já deixava o consultório, encerrando um dia de intenso atendimento, quando a secretária correu ao seu encontro, ainda no corredor do “Edifício Especialidades”: — Doutor, Doutor Luiz... na correria ia me esquecendo, a Jéssica ligou e pediu que levasse uma apostila que trata de biologia, com foco em genética e fisiologia... O médico fez um ligeiro retorno com o corpo,  acentuando o seu modo calmo, prestativo  e de aparência tranquila.

— Vou pegar na estante... não canso de dizer pra Jéssica  que o perigo é deixar de lado a prova de redação, a maioria não passa dessa fase... Refletiu, olhando e rindo  amigável pra Secretária: — Mas na verdade tudo é importante – concluiu. Em instantes, já com o livro  na mão, folheou também outros títulos da estante, detendo-se num escrito da área química: estequiometria, química orgânica, inorgânica e eletroquímica. “— São importantes!...” —  ponderou a si mesmo.A caminho do carro, ainda no corredor para o estacionamento, voltou-lhe à mente seu  passado dos anos inglórios e tentativas-vãs  para o vestibular de medicina. Riu de si mesmo, pois exatamente a prova de redação eliminara-o por duas vezes, seguidas, ainda que fizesse esforços em dobro no cursinho, auxiliado pelo reforço do professor Francisco, o Chicão,  — o fera mais reconhecido dos cursinhos na área  de redação, interpretação de textos e língua portuguesa.  - Boa noite, Doutor!!!   A voz do homem  soou desconhecida, cortando-lhe o fluxo da memória.  Voz amigável, porém nova e aparentemente irreconhecível. Redobrou o olhar, tentando, em vão,  fazer um reconhecimento...—Boa Noite... se for consulta, já encerrei o dia, mas pode subir que a secretária ainda atende, orienta e agenda uma data!... — O assunto é outro, Doutor!... Pego de surpresa, estancou-se junto ao carro com a chave na mão. Optou por não abrir ainda. Com o olhar focado, rastreou o interlocutor e todo o ambiente à volta. Alguns carros movimentavam-se nesse horário de saída. Reconheceu um ou outro deles, os colegas dos andares diversos – Cardiologistas, Oftalmos,  Urologia, Otorrinos e alguns cirurgiões.

— O menino é o Theo... Jéssica, a sua filha, né?...Quem diria, já nas portas do vestibular pra medicina?!...Não se controla a respiração diante de um  tumulto ou de um turbilhão de palavras feito navalhas. Saber que sabem tudo sobre a gente, nos deixa frágeis e impotentes. O médico sentiu na pele que havia algo por esclarecer, ainda que preferisse estar longe desse enfrentamento.

-—Como sabe do Théo?... Como sabe da ...

-—Sei também que você é craque no Golfe, Doutor!...

-—Como assim?...Como?...

— E além disso...sei que tem uma  mira precisa no Clube do Tiro, Doutor!...

— Filhos da Puta, quem é você,  quem são!?...

—Calma. Fique calmo, Doutor... estamos em comum acordo com a ala antiga, encarregada de fornecer os gabaritos. Agora chegou nossa vez.  Mas a  nova ala respeita o silêncio e o sigilo da mesma maneira, Doutor.  

Jogando o peso do corpo sobre a lateral do carro, o Doutor  Luiz Marcos esforçava-se para manter o equilíbrio diante de um passado que lhe chegava assim de supetão e violento, há muito, caído no esquecimento. - Meu Deus,  tanto tempo... por que isso, agora? – praguejou, esperando respostas. - Estamos entre nós, Doutor. Nosso grupo  age assim em centenas de locais e com milhares de clientes.  Está tudo sob nosso domínio nessa outra etapa agora. Veja só, demos um tempo de sobra, né, Doutor. Aprovação com louvor no Vestibular. Acesso à faculdade de ponta. Residência médica reconhecida...No mínimo, 7 a 10  anos de estudos e preparativos. O que ficou pra trás, ficou, Doutor. Estamos em outro momento. Compramos o direito de seguir com aqueles  nossos “alunos brilhantes” e de conceito “nota dez” no ramo da medicina. São muitos, você sabe, Doutor!... Hoje, claro, todos estão bem sucedidos e estáveis. É natural essa espécie de reciclagem. Em termos financeiros, isso é um nada. Em termos de revelação pública, isso seria   um desastre total na carreira!...- E o que querem? — indagou o médico, respirando fundo, ofegante.— Digamos que é uma espécie de mesada, Doutor!... Estamos cobrando um ano vencido e o ano atual. 100 mais 100... a conta fecha em 200 mil, Doutor Luiz Marcos!... Retomamos o sigilo como missão!...Ah!... sem esquecer que temos ficha completa de todos, incluindo familiares, filhos, amigos e entidades médicas. O cardiologista sentia que  ali experimentava um tanto do seu próprio veneno. Uma  forte emoção desencadeava suor intenso e  uma série de sintomas no corpo e no coração. Hormônios em propulsão, estresse. Tremores. Alterações na pressão arterial. Tensão muscular. Dores no pescoço e nos ombros. A respiração em alta.  Aceleração dos batimentos cardíacos provocando uma  reação imediata como se preparasse o corpo para lutar ou fugir. - Fique tranquilo, Doutor!... não acompanhei o que se passou há 20 e poucos anos, mas posso imaginar que a compra dos gabaritos na primeira e segunda etapas,  deve ter lhe causado a mesma sensação, não é verdade!...Tanto tempo depois, não vamos jogar por terra uma iniciativa bem sucedida para todos, concorda, Doutor? Além do mais, o cerco em nosso trabalho vem se  fechando cada vez mais. Temos que fortalecer logísticas, parcerias e selecionar a dedo nossos novos clientes. Mas,  se obedecida as regras do jogo, todos seguem no  seu ritmo, Doutor Luiz Marcos!...Por instantes, os olhos do cardiologista mantiveram-se fixos no envelope disponível, entregue pela mão do homem a sua frente. Reteve-se o quanto pode. Era lutar ou fugir. Assim, suas mãos trêmulas agarraram o documento, sob o temor da voz reiterativa do homem:  — Como eu disse se obedecida as regras do Jogo Doutor Luiz Marcos, todos seguem no seu ritmo a vida inteira!... Enquanto dirigia no trânsito já um tanto  rarefeito no inicio da noite, o cardiologista escolhia o álibi necessário para se justificar do pequeno atraso. A princípio, o próprio  trânsito, por exemplo. Nesse ínterim,  seus olhos focaram o envelope sobre o banco vazio. A esposa não poderia saber de algo tão antigo... e desonesto. Nunca lhe contara. Aliás, nem mesmo seus pais, ainda vivos, sabiam de coisa alguma. Jéssica, então, nem pensar, nem em sonhos...  Dias antes da matrícula, descobrira através de um cara bem manjado  do cursinho, o Ney Ventania, apelidado também de magrelão,  que era possível pagar por um gabarito. Tiro e queda -  dissera -  garantiam tudo sem risco. Era lutar ou fugir. Resistira durante 2 anos seguidos, porém, no terceiro jurou que não enfrentaria de “cara limpa” um novo vestibular da medicina.Temia uma nova reprovação. Assim,  retomou o contato, juntou  o dinheiro e, tudo camuflado,  garantiu a aprovação, sob um silêncio de ouro. Como sempre houve denúncias, umas poucas, e vazias, não comprovaram nada. Tudo abafado.  O seu olhar agora, voltou-se, furtivamente, para o envelope. Estacionou em um ponto estratégico e abriu o documento.  Seus olhos iam e vinham sob as linhas escritas. Vez ou outra distraia-se, pensativo,  olhando as luzes piscantes dos carros na  avenida. Memorizou logo: o encontro em 2 dias numa sala do cinema, locada para uma sessão exclusiva  de um  filme especial. As letras grifadas sob o nome Jéssica  ganharam explosão na sua voz: -Não, Não!... Jéssica, não!... Filhos da puta. Filhos da puta!... Um último gesto marcaria seus passos antes de entrar em casa:  tentando esconder sua raiva profunda e temerosa, o cardiologista picotou minuciosamente o papel escrito  e o envelope, atirando-os, espalhafatosamente pedaço por pedaço  nas ligeiras do prédio. Em casa, nem um pio sobre o ocorrido. Somente alegou um dia estafante... e depois do expediente, um trânsito infernal. Enquanto Helena, a esposa, tratava de  alguns assuntos domésticos com a diarista, Théo seguia  ativo com seu vídeo-game; carinhosa, Jéssica se aproximou e  esticou a mão, e o sorriso, relembrando o pedido das apostilas, sob um olhar receoso e disfarçado do pai, que com esforço,  reiterava sobre  a prova de redação do vestibular: - A maioria perde pontos nessa prova. Dedique mais  tempo nisso!...Eu mesmo, na época, tive que fazer das tripas-coração para sair bem no tema – ainda me lembro até hoje:  “A banalização da corrupção no dia-a-dia dos brasileiros”. Jéssica riu e marcou sua posição sobre essa escolha, diante do olhar falso do pai: - Pois é, ainda hoje tem muito a ver com a gente – furar uma fila, dar carteirada pra ganhar uma vaga, pagar propinas...e por aí vai...Pouco depois, o cardiologista alegava em alto e bom tom, o  descanso necessário. Uma agenda complexa o esperava na manhã seguinte. Um procedimento de ponte de safena no paciente da manhã, além de uma desobstrução de artérias no paciente da tarde. Na vigília do sono, o cirurgião  passara em revista o envelope com as regras a serem cumpridas. Sacaria o dinheiro de aplicação sem levantar suspeitas com a gerência. Diria simplesmente: Entrada para uma casa de campo no interior paulista. Condomínio ainda em construção. Passo seguinte: acondicionar numa maleta adequada e sem suspeitas. Posteriormente, entrar na sala indicada, fileira F, poltrona 1, deixar a maleta no local, e  após 10 minutos do filme, sair à francesa, sem sequer olhar para traz. Seria o único contato do ano. Quanto à Jéssica, intimada a  ser uma “Colaboradora Especial de Captação de Clientes”, pela importância do assunto, ficaria para um novo contato.  Já de manhã, Doutor Luiz Marcos  recomendou de imediato à secretaria que  precisava desmarcar consultas agendadas para o dia  seguinte. Tinha compromisso inadiável. Assim, nessa manhã seu caminho foi outro. Inicialmente, ponderou sobre sua presença nesse encontro da desconhecida organização. Segundos depois, debruçou atenção sobre o filme a que aludiam – pois já ouvira falar:  “O Lobo de Wall Street”, filme que retratava fraudes financeiras e práticas ilegais de enriquecimento; no filme, diziam,  a  corrupção estava na ordem do dia. Sem saber como, em instantes imprecisos, espocou-lhe alto. sob rigoroso tremor dos lábios o nome da filha: Jéssica... Jéssica... Não, não... Jéssica, não!... ato continuo esmurrou fortemente o volante sob seu grito cortante: Filhos da puta!... Filhos da puta!... Na agência, pouco falou com o gerente, apenas insistiu no dinheiro em  espécie, alegando que o  dinheiro-vivo era necessário para a aquisição da casa no condomínio. Já no estacionamento, ajeitou a maleta com a cédulas no bagageiro; por instantes,  conferiu  a arma que sempre mantinha disponível para eventualidades ou treinos no Clube. Ajeitou o casaco, acomodou e camuflou a eventual defesa e a maleta, e  seguiu em frente já no pomposo Shopping Center, encaminhando-se para o piso-cinema, terceiro andar, a ser vencido passo a passo  pelas escadas-rolantes... Pareceu-lhe que a senha de acesso à sala indicada, fora a maleta, pois o bilheteiro enfatizou ágil:  Pode entrar, estão esperando!...

O Doutor Luiz Marcos cadenciou os passos em meio ao claro escuro da sala, ainda sem a projeção do filme. Pipocavam aqui e ali alguns homens  de terno escuro, todos sentados e silenciosos. Um apenas se pronunciou alto, aos gritos de reconhecimento:  Luiz gogó, aqui, aqui... quanto tempo, gogó!?... Eu não disse que  seria médico, hein? Todos se voltaram para a expectativa criada. O cirurgião-cardiologista, mesmo sem querer voltara ao tempo. A memória não o havia abandonado. Sim, era ele. Ney Ventania... o Magrelão. Quem sabe, ali,  o líder da antiga ou dessa nova organização. Ambos, como que combinados, mantiveram-se estáticos. Sim, quanto tempo, sentenciou para si mesmo o Doutor Luiz Marcos, já se acomodando na fileira F, poltrona 1. O silenciou retornou suave como a luz que se esmaecia. Por instantes, em milionésimos de pequenos segundos, o cirurgião-cardiologista sentiu o frio e a tensão eclodirem pelo corpo. Haveria de defender a filha, fosse como fosse. Ele sim, não ela, mereceria esse encontro imponderável. Agora, era mesmo lutar ou fugir. Assim, enquanto a luz dormitava lentamente para o escuro, seus braços abriram o casaco de onde manuseou a submetralhadora Thompson, a preferida de Al Capone,  pronta para os disparos. Seu faro de direção, treinado no Clube do Tiro, eliminou, uma a uma,  as chances de todos. Em especial a do Magrelão, que ali sinalizara ser um elo que devia ser rompido.  Da sua boca, intermitente, um som testemunhava a salva de tiros que ressurgia a cada instante,  aleatoriamente:  -—  Jéssica, não! Jéssica, não!... Filhos da puta!... Filhos da puta!...  Doutor Luiz Marcos, o cardiologista-cirurgião, o cliente da fileira F, poltrona 1, depois de 54 tiros  e 15 mortes contadas na sala do cinema, deixou-se entregar à polícia; os agentes  foram chamados num espaço considerável de tempo, uma vez que na área externa,  todos juravam ser um filme poderoso, quem sabe o “Free Fire: O Tiroteio”, tendo em vista o excesso interminável de tiros que  ouviram.  










 

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

 

                   OS BÊBADOS NÃO DESCEM AO MEIO-FIO IMPUNES.

 


(Prêmio VIP de Literatura 2024 /  Classificação: 1º. Lugar


- CAÍ!... 

A palavra vinha-lhe seca e sonora como uma queda abrupta. Um ora pro nobis repetido em penitências, a ladainha. O andarilho bêbado, em andrajos, corpo arqueado, cambaleava junto ao meio-fio como quem fizesse a revelação pública de um pavor íntimo, guardado a sete chaves ou escondido por timidez – O  homem segurou o tombo com um inevitável abraço surdo e encaixado no ereto poste da rua;  seus olhos esbugalharam-se silenciosos e  amarrotados como  um mangá humano, desenhados à revelia e na diagonal, com obscuras perspectivas e pontos-de-fuga. Uma realidade virtual e desconhecida, o labirinto de um porvir estampado naquele rosto ébrio.

- CAÍ!... 

Estanquei-me sem pressa e  sem qualquer razão mais aparente, o meu costume diário, ali na lanchonete do Ananias. Um boteco de esquina, tal qual esses a quem chamamos de pé-pra-fora. Posicionei-me junto à porta para algo inevitável, entretanto, apenas pressentido, pois bem ali, à minha frente:o   bêbado repetia as sílabas insistentes, delirando nomes e datas e feitos e fatos que, aos poucos e  a rigor,  situavam-no num setor de serviços de uma  empresa ou uma indústria qualquer...Um  operador de sistemas?...  Quem sabe um atendente?... Um Chefe de Setor?... Um Coordenador de Área? ... O próprio Diretor?...   O que se via, ali, no entanto, era o improvável desafio do bêbado entre o seu  esvair do mundo corporativo e o  avançar  junto ao grupo esquálido,  que supostamente, o  esperava com satisfação na outra margem da rua.   Quem seriam, para ele, aqueles andarilhos urbanos, mendigos, ajuntados ali,  e sem-moradia, em meio à calçada crua  sob a marquise protetora?...  As mãos do bêbado, automáticas que foram, revistaram, inutilmente, os bolsos fundos à procura de algo. Afundaram-se, ambas as mãos, em busca do avesso,do avesso, do avesso.  Seria um celular?...  Uma agenda eletrônica?... Um caderno de anotações?... Um laptop? O Iphone?... Como eu, ali presente, quem o  visse, naquela estreita distância, logo  entenderia:  era urgente e/ou urgentíssimo comunicar o atraso sobre a importante reunião da qual  deveria participar...Quem sabe, talvez, coordenar?”...  Os sons embolados – numa sintaxe   irreconhecível, formavam um emaranhado de vozes e nomes e datas  e tarefas e projetos,  como fossem  uma linha cruzada em línguas diversas: as palavras, todas,  soavam ali, irrealizáveis, soltas e desconexas, todas elas carentes de uma  história que haveria, por certo, de existir. Diante do pânico e temor de um passo em falso, os gestos e os olhos do bêbado fixaram-se, estáticos,  nas minhas retinas; elas, sim,  turvas e impacientes....

- CAÍ!... 

Agarrado ao poste, o andarilho bêbado experimentava o horror pelas alturas, vociferando um ódio mortal  no desnível assustador  entre a calçada e a  rua. Estava escrito, ali, o prenúncio de uma queda no pequeno vão livre de poucos centímetros, que lhe ensandecia o corpo e  a mente: o drama de um pacote solto por um guindaste, a despencar  sob os olhos  desesperados dos tripulantes e estivadores  na imensidão de um  cais do porto.   Como um arbusto que se alastra, criando contornos próprios e de defesa, o bêbado estendeu seus braços e os pés em forma de uma concha num sinuoso movimento de cai-não-cai: agulha e linha de uma fábula contemporânea, o bêbado e o poste.   O poste e o bêbado.   O corpo torto costurando o invisível tecido urbano, entrecortado pelo trânsito intenso e  feroz de um dia comum.  A voz do bêbado vinha  do fundo, arrancando o grito com recheio de pavor, a voz  penalizada, temerosa, como a suplicar uma volta atrás, ainda que sofredora ou acolhedora... Retornar, quem sabe, à empresa?... Voltar, talvez, à família?...  Reassumir o antigo Setor Contábil?... Criar novas metas para as equipes de Vendas?... Preparar o novo programa de gestão para os clientes?... Em seu silêncio regrado, o bêbado não disse: Recuperar a mim mesmo!... Talvez, tenha jurado com os dedos em cruz, ou apenas fora o que eu mesmo entendi, sóbrio, lúcido e  necessitado desse gesto honroso para aquele  homem  à minha frente.

- CAÍ!... 

O andarilho bêbado enfatizava o som intransitivo junto ao meio-fio. Corpo e voz sintonizados vivos naquela epopeia urbana. Um rosário de lamentações, o delírio. O vocabulário-bêbado reduzido ao único e inevitável verbo. Interjeições e complementos mantinham-se ausentes como num suicídio premeditado, sem cartas de explicação guardadas em gavetas,  ou escondidas em caixas camufladas no interior  de  um armário.  O bêbado adiava, a olhos vistos, o seu inevitável tombo. Nenhuma interjeição pra resistir-lhe o peso.  Um passo-a-passo para  o abandono do emprego e a  demissão  por justa causa.  Seria o Jorge, aquele  do turno da noite?...  Não, o Antônio, o da logística, do setor de trâmites com o  Brasil Central?... Ele?...  Ele mesmo?...Será?!....

- CAÍ!... 

Os bêbados não descem ao meio-fio impunes. O medo do estatelamento e o baque fatal são o preço do pedágio.  A palavra exata e coesa traduzia-lhe a derrocada vertiginosa do topo de uma pirâmide.  Gole após gole, o peso do corpo fragilizando-o diante das salas frias e burocráticas. O entra-e-sai durando a eternidade. O bêbado persistia naquela frase completa, que por si só se desfazia num arriscado voo no universo plano. Corpo e alma simplificados naquela oração enfática, reiterada ilegível e insistentemente. Os bêbados não se arrastam às pedras sem a sonoridade. Decibéis inaudíveis, o grito agudo - a cara no chão!  No leito asfáltico, os veículos acentuavam  o movimento da cena. O pânico do meio-fio surgia-lhe como o ultimo filete de areia na ampulheta.  O andarilho bêbado, ali, à minha frente, ao rés do chão,  capaz de segredar-me  data, hora e o lugar que lhe valeram a queda num  abismo: as  odisseias intermináveis pelos corredores e salas, ouvindo, insistentemente, sermões,refrões e lenga-lengas,  que lhe soavam como uma punhalada pelas costas:  Entre, Senhor Fulano, estamos esperando, entre!.. Venha,  Sicrano... por aqui, me faça o favor!...

 - CAÍ!... 

A derradeira palavra, a mesmíssima, soou-me, agora,  abafada, como uma queda à distância. O bêbado ergueu-se com o esforço possível, graças à força do seu pé de apoio. E,resistente,  com quem se lançasse às últimas energias diárias, arranhou o poste como uma parede nua, em que se abrem frinchas profundas.  Soergueu-se, olhando-me incisivamente. Olhando a mim e o nada.  A rua inteira e a ausência. Olhando a rua e ninguém. A calçada e os vultos. As pessoas e o vazio. Os veículos e o espaço inútil.  Os passos em falso do bêbado, ambos, juntos, atiraram-no ao plano da rua, à frente, para além do meio fio, na medida exata sobre um  chão duro... O baque certeiro do ônibus encarregou-se do sucesso da empreitada.  Os bêbados não descem ao meio-fio impunes. Em meio às vozes e burburinhos, ouvia-se sucessivos apelos para o número do carro-resgate, dito em tons de  insistência e desespero pelos celulares  mais próximos. Ainda sob o som de sirenes cortantes, aproximei-me da cena com todo o desconforto possível. Réu e testemunha, abri espaços entre a aglomeração para um último olhar sobre o andarilho, que mantinha os olhos esbugalhados e estáticos e diretos sobre mim, como quem passasse às minhas retinas, agora,  um enunciado completo, escrito a mão, com todas  as letras,  sílabas, frases e o significado de toda a  sua  história. Sou ali, então, o seu prisioneiro...um cego, surdo e mudo, reverenciando uma tragédia anunciada,  sem me dar conta sequer de como me desviar desse  caminho inevitável...

 

 Texto:  Celso Lopes   elipse84@terra.com.br

DIONÍSIO, O GATO...

 

 

Bicho invocado, aquele. Cor de ferrugem com  cinza escuro e o olhar de quem diz  “- E aí, tá tudo pela ordem?”. “- Aqui, tudo dominado, Chefe, o território é nosso! – respondiam-lhe, juntos, os bichanos da rua, seus  comandados, onde Dionísio era Rei, o Chefe-mor. 

Esta foi a parte do Gato, entretanto, há de se fazer justiça: Seo Dioguinho, que já no nome trazia uma história que fervilhava na imaginação do povo,  carregava parentesco, ainda que distante, e de muitas e muitas  décadas atrás, com o famoso matador de aluguel e outras querelas, que surgira no interior paulista, e que fizera  história no mundo do crime  a serviço dos poderosos coronéis e barões do café.  No entanto, o Seo Dioguinho de hoje era café pequeno, mas bem que corria um pouco daquele mesmo sangue vermelho nas suas veias. Pois, quis o destino que Dionísio e Seo Dioguinho,ambos avessos à paz e ao “deixa a vida me levar”,  cruzassem o mesmo caminho. Um sob os olhos e a fúria do outro. Assim, lá ia  ele, Dionísio, ameaçando e pondo pra correr um  grupo de patos. Quac, Quac, Quac, patas-pra-que-te-quero, e logo, rapidinhos,desapareciam das garras do felino... E não duvide, Dionísio mostrava as garras até mesmo pros vira-latas desavisados que rondavam as proximidades da casa. De novo, o Dionísio, um olho torto e arisco em direção aos ratos e ratazanas desamparados  pela fome. Disseram que outro dia, pôs pra correr uma cascavel perdida no meio-fio da rua; Dionísio  chocalhou a serpente no ar com chocalho e tudo.  E era assim mesmo. A história não mente.  Bem disse, certa vez, Dario (550-478 a.C.) o antigo rei da Pérsia, vencedor de  Caldeus e  Babilônios, à custa de   ampliar seu reino até a Jônia, Trácia, Síria e Cartago, criando, ali, um dos maiores impérios da Antiguidade. “ ... de plano diretor e  gestão de guerra eu entendo, e afirmo sem erro,  que  os Gatos serão os sucessores da raça humana, sujeita à extinção, junto com o seu próprio planeta. É  viver pra ver.”Credo Cruz...esse Dario! – Vade-retro. Pois o que se deu é que muitos séculos depois, chegou a hora e a vez de Seo Dioguinho, o Chefe-mor da casa humana,  onde habitava  o Dionísio, criar um entrevero  à custa de um tropeço acidental  e um chute carregado de ódio na corcova pão-de-açúcar do gato  Dionísio. A partir daí, como se diz, o bicho pegou. Fosse dado a quem viu o confronto entre ambos, uma leitura mais bem aguçada, veria que o certo e o errado, o justo e o injusto, o perdão e a vingança, o amor e o ódio se alastraram  como fossem  fios elétricos desencapados, ali, à flor da pele de um  e à flor dos pelos do outro. Seo Dioguinho, na prevenção, passou a usar as botas sete-léguas, bico fino e solado que denunciava a sua chegada pra exercer a pulso o seu  comando.  Dionísio, em revide, a seu jeito, entendeu, como alguns animais assim dotados, em fazer a escolha mais acertada, obedecendo a  ascendência de conexões e sinapses da sua  inteligência felina.  Assim, seus olhos dionisíacos paralisavam, fulminando o oponente e iminente agressor, por  instantes a fio,  que duravam como a eternidade. Ali, com o olhar cruel disponível, Dionísio balançava   os pelos, e se  punha levantando a corcova montanhosa , o que lhe dava  uma posição invejável e  altíssima, deixando ver seu corpo  troncudo e arredio, revelando na mandíbula avermelhada,  todos os seus  dentes afiados, prontos pra fatiar esse ‘tal’,  como uma navalha cortando, sem perdão,  todas as veias da carne...Muito se falava do homem de casaco de couro por ali. Pra uns, seguira a sina da família, era mesmo capanga de mandantes naquela região aurífera. Pra outros, ganhara notoriedade por lembrar o figurino de “Teodoro do casaco de couro”, um tronco de homem que viera do norte, um capataz de fazenda nas Alagoas, contratado pra ser o Chefe e fazer o  serviço de “limpeza” de bandidos na região,a quem lhe pagasse mais... Pelo sim ou pelo não, dava no mesmo. No entanto, ali, no disfarce, no meio da comunidade, naquela   vizinhança,  era mesmo Seo Dioguinho – mas não faltava quem  lhe  enxergasse sob aquele casaco de couro, a crueldade e a maldade na alma, tal qual seu ascendente, o famoso bandido Dioguinho.O gato Dionísio, por certo, via tudo isso com seus dois olhos fulminantes. E quisera a sorte que, naquele dia fatídico, houvesse, ainda,  um maior desentendimento com o bichano que, quieto e na paz merecida, deglutia uma cabeça de peixe encontrada no lixo...

Pois como quem não quer nada e quer tudo, Seo Dioguinho, com a gana de  mostrar quem era o Rei da Selva por ali, quem mandava e fazia as leis  naquele território demarcado,  fingiu tirar  o casaco de couro  e  tascou-lhe um chute bem dado que o entortou um metro e meio no  ar... Entretanto, sem  tirar nem por, Dionísio rodopiou o  metro e meio acima com   as sete-vidas de que dispunha...e caiu ileso, inteiro, feito homem,  de pé, só ferido bem fundo no seu  orgulho. Fosse dado a quem viu aquela cena,a sabedoria de contá-la,  diria ter visto a alma humana pecaminosa em plena ebulição, e  em sua pior condição, tentando, a todo custo, no embate, como um truculento  galo-de-rinha indiano,  liquidar o oponente numa arena  ladeada pelas  brasas-vivas do inferno.  Espere pelo pior, Seo Dioguinho, mas antes–  diria essa testemunha ocular,  antes,   tome tento na história, que já lhe foi dita. Se a raça humana der brecha... já sabe, não é?... E pelo que me parece estão se descuidando... E Dionísio, então, mostrou, ainda mais, as suas  garras afiadas,  como um descendente de Dionísio, aquele regado a festas  campestres e palacianas... Aquele dotado de domínio sobre cultos, teatros, fecundidade e amante da natureza... Sim, ele, o Deus Dionísio, eleito por unanimidade como Baco, o Deus do Vinho. Ele, um Deus Grego, imortal, que não perderia  essa parada para um descendentezinho dos pobres mortais, alcunhado de Seo Dioguinho qualquer...Espere pelo pior, Seo Dioguinho – pareceu dizer, o imortal Dionísio...e disse.Pois não lhe contaram, Seo Dioguinho, o  que diz  o escritor americano Carl Van Vechten,  sobre nossa espécie, os Gatos?...pois, então,  escute só: “ Um gato nunca é comum, portanto, não é mundano, é um gato; e gatos têm personalidade forte”... E mais, Seo Dioguinho... agora, calo-te, de vez, a boca. Diz aí, petulante, quem é nobre ou quem é a pobreza em pessoa?...Deus me livre disso, mas ouça o que diz Mark Twain, escritor e humorista:“Se o homem pudesse cruzar com os gatos, isso melhoraria o homem e deterioraria o gato”. Fosse o que fosse: estava, ali, criado, um cenário de terra arrasada!...Seo Dioguinho não esperava portanto. Mas, como um ser superior em “achismo”, livrou-se do confronto e  seguiu sua vida  praguejando o seu rival  em gestos, palavras e obras...um desses gestos foi postar-se à espreita, com a  arma em punho, preparada para o disparo. Dionísio, espertamente, captou a mensagem e escafedeu-se em esconderijos. Outro desses gestos de Seo Dioguinho, foi o de  atirar, raivosamente,e cuspindo palavrões, o seu elegante e refinado casaco de couro marrom, reluzente,  brilhoso, sobre os braços de uma  cadeira inocente, fazendo aflorar  no vestuário,  a  etiqueta onde se lia “Cuero de Cabra- Made in Argentina; gesto esse que,  na calada da noite, em silêncio absoluto, colocou  em   prova,  a capacidade felina de Dionísio,  ao armazenar e fazer implodir certas  ações humanas desrespeitosas e desaforadas...Aquela manhã foi a testemunha ocular da história. As tiras arranhadas e arrancadas nas costas do  casaco de couro,  desenhavam  no plano  vertical,  harmoniosamente,  deixando ver entre elas,  sob um vento leve,  a luz filtrada  do sol da janela e da porta da rua... Seo Dioguinho, ainda com os olhos feridos pela luz solar, estendeu no ar e no alto,  o seu distinto casaco de couro em tiras,  como fosse  um toureiro na arena à espera do touro desafeto... E sob um  silêncio insuportável  e carregado de ódio, vociferou, guturalmente, aquele nome que lhe surgia arrancado das suas entranhas:   

- DIONÍSIO!... DIONÍSIO!...”

O grito dioguinhoso, explosivo e repetitivo, tingindo o ar  de  tons manchados de sangue desde a sua primeira geração, ecoou histérico e apunhalador... O silêncio extraordinário de Dionísio, arrastara a  sua proeza felina, bem nas fuças da raça humana, silenciosamente retumbante. Dele, Dionísio, escassearam-se as notícias por um longo espaço de tempo. Bicho invocado aquele. Cor de fumo-navarino-com-chama, uma coloração descoberta durante as  guerras sangrentas d’outrora*.   Um  olhar de quem continuaria sempre a dizer:“- E aí, tá tudo pela ordem?”. “- Bem-vindo de volta, Chefe... O território continua nosso! – responderiam, juntos, todos os  seus  comandados, em reverência cerimoniosa ao  retorno do antigo Rei,  o Chefe-mor da rua.

 

 

(*)Referência a  “Navarino” – Batalha famosa na guerra da independência Grega. (cor de tecido, fumo e fogo). In:Almas Mortas- pg. 410 – Nicolai Gógol.

 

 

 Texto: Celso Lopes   elipse84@terra.com.br     11 98487 1193